Sulfato de amônio na soja: quando vale aplicar antes do plantio

Vinícius Caetano, engenheiro agrônomo
· 9 min de leitura

Vídeo: aplique sulfato de amônio antes da soja (desse jeito) (canal Agricultura Regenerativa)

Você planta soja numa região de milho safrinha, colhe entre 50 e 80 sacas por hectare e vê o vizinho colher mais com a mesma cultivar e o mesmo tipo de solo. A reação comum é procurar o que falta aplicar na soja, e o sulfato de amônio na soja, jogado antes do plantio, costuma aparecer na lista.

No vídeo, o Caetano parte daí para uma conta que pouca gente faz: quanto nitrogênio o milho safrinha levou embora e quanto foi reposto. O sulfato de amônio entra no fim, como remendo para uma situação específica, e ele deixa claro que não é coisa para fazer todo ano.

De onde vem o nitrogênio que falta para a soja?

O exemplo é a lavoura de milho safrinha de um cliente de consultoria do Caetano. O milho recebeu 30 kg de nitrogênio (N) na base e 50 kg em cobertura, 80 kg de N por hectare no total.

Pelo manual de adubação e calagem do Paraná, da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, que o Caetano consulta no vídeo, o milho extrai cerca de 20 kg de N para cada tonelada de grão, e uns 15 kg desses saem da lavoura com o grão. A área produz, historicamente, perto de 7,5 toneladas por hectare. A conta fica assim:

  • extração do milho: cerca de 150 kg de N por hectare;
  • exportação no grão: cerca de 112 kg de N por hectare;
  • adubação: 80 kg de N por hectare.

O que foi extraído e não saiu no grão fica na palhada. Palhada de gramínea, como a do milho, demora a se decompor, e o Caetano estima uns 18 meses até esse nitrogênio voltar todo ao solo. A soja plantada logo depois não conta com ele. Por isso a conta do vídeo usa a extração, e o sistema chega ao plantio da soja com um saldo negativo de uns 70 kg de N por hectare.

Por que o saldo negativo come a qualidade do seu solo?

Se o milho produziu com menos nitrogênio do que precisava, o resto veio da matéria orgânica do solo. O Caetano separa duas frações.

A matéria orgânica particulada é resto de planta que ainda não terminou de se decompor. Quando a lavoura consome o nitrogênio dela, esse material deixa de virar matéria orgânica estável e você para de ganhar qualidade de solo.

A matéria orgânica associada a minerais, onde estão os ácidos húmicos e fúlvicos, é a que dá ao solo capacidade de reter umidade, capacidade de troca de cátions (CTC) e base para a vida microbiana. Se a planta precisa tirar nitrogênio daí, o solo perde qualidade. O Caetano chama isso de canibalizar o solo.

Isso ajuda a explicar por que o mesmo solo se comporta diferente em duas propriedades vizinhas: o manejo do nitrogênio, safra após safra, muda o ambiente de produção. Num vídeo do canal sobre o mesmo tema, o consultor Márcio Strieder (DK Ciência Agronômica) conta o caso de um produtor na Bolívia que fez sorgo na safrinha sem nitrogênio por anos. O solo compactou a ponto de a água não passar dos 20 cm.

A fixação biológica não dá conta do nitrogênio na soja?

É a objeção mais comum, e o Caetano responde com número. Ele cita um estudo segundo o qual a fixação biológica de nitrogênio (FBN) fornece por volta de 350 kg de N por hectare quando tudo corre bem. Com a soja extraindo perto de 78 a 80 kg de N por tonelada de grão, isso sustenta cerca de 75 sacas por hectare. O que passar disso depende do nitrogênio do solo.

E o teto vale só se nada atrapalhar. No vídeo, ele lista o que costuma atrapalhar:

  • inoculante mal armazenado (num galpão de zinco a 50 ou 60 graus, as bactérias morrem);
  • a dose de inoculante, que tem feito diferença nos resultados de pesquisa que ele acompanha;
  • o pH do solo e os teores de cobalto, molibdênio e níquel;
  • falta de água no começo da safra, com os nódulos em formação, o fator que mais pesa para ele.

O Márcio Strieder chega a uma faixa parecida: na maioria dos casos, a FBN dá nitrogênio para algo entre 70 e 80 sacas. Se a sua meta é passar disso, contar só com ela não fecha a conta.

Quanto o saldo negativo custa em sacas?

Na área do cliente, com cerca de 80 kg de N por tonelada de soja, um saldo de 70 kg de N a menos corresponde a quase uma tonelada de grão. O Caetano estima de 15 a 20 sacas por hectare perdidas antes do plantio.

Ele também cita um levantamento de uma consultoria parceira, em dezenas de lavouras, sobre a resposta da soja ao nitrogênio. O ganho médio foi de 15 sacas por hectare, com mínimo de 2 e máximo de 33. Quanto mais negativo era o balanço de nitrogênio da área, mais a soja respondeu.

São números de áreas específicas: mostram o tamanho do problema, não o que vai acontecer na sua.

Quando o sulfato de amônio na soja faz sentido?

O Caetano defende que o balanço de nitrogênio seja fechado, e o sulfato de amônio em pré-plantio é uma das formas de fazer isso. Para ele, só vale em situações pontuais.

O exemplo que ele dá: você assume uma área e a soja entra dali a 40 ou 50 dias, sem tempo de colocar uma leguminosa para fixar nitrogênio antes. Aí faz sentido entrar com um pouco de nitrogênio mineral, calibrado para cobrir o saldo negativo e nada além. Para a área do vídeo, ele fala em 100 a 300 kg de sulfato de amônio por hectare, de 20 a 60 kg de N, e não mais que isso. Nitrogênio mineral em excesso no solo atrapalha a própria FBN, e você acaba pagando para piorar o sistema que fornece a maior parte do nitrogênio da soja.

O Márcio Strieder dá detalhes de posicionamento. Ele aplica o sulfato sobre a palhada, antes de plantar, porque nos testes dele a aplicação em R3 ou R4 não teve o mesmo desempenho. Lembra também que o sulfato de amônio não volatiliza, então o nitrogênio não se perde para o ar. E conta que, para fechar o balanço na safrinha, tem trocado a ureia pelo sulfato de amônio, que já leva enxofre, nutriente que muitas vezes fica de fora na soja.

Quanto aplicar depende do que o milho produziu, do que recebeu e da análise de solo. O número do vídeo é de uma área, não uma dose para copiar.

Por que ele não deve virar rotina?

Para o Caetano, pôr sulfato de amônio todo ano pensando na soja é o pior jeito de resolver o problema. Os consultores que ele conhece e que recomendam o pré-plantio só fazem isso quando o plantio está em cima, e não em todas as áreas nem todos os anos.

Existe um nitrogênio mais barato, que ele chama de nitrogênio verde: o das plantas que fixam nitrogênio. Além do N, elas aumentam a população de microrganismos benéficos e de micorrizas. As crotalárias ainda melhoram a física do solo, ajudam a descompactar e a guardar água. A ervilha forrageira, uma das preferidas dele, fixa nitrogênio e ajuda a solubilizar fósforo pela associação com micorrizas.

No longo prazo, o solo precisa de nitrogênio para formar a matéria orgânica estável que retém água e nutrientes. Por isso o Caetano insiste em não repetir aveia ou braquiária todo ano e em pôr plantas fixadoras na rotação. O artigo sobre mix de plantas de manejo do solo no plantio direto aprofunda esse ponto.

O Márcio resume assim: a braquiária sobe o carbono, a leguminosa sobe o nitrogênio, e o sistema precisa dos dois.

Quando isso não se aplica à sua área?

A conta do vídeo depende de algumas condições. Primeiro, é preciso ter milho ou sorgo na safrinha antes da soja, adubado abaixo do que produziu. Sem safrinha, ou com safrinha adubada para o que colheu, o saldo negativo pode nem existir. Na conversa com o Márcio, o próprio Caetano diz que isso aparece menos nos Campos Gerais, onde ele trabalha, porque poucas regiões do Sul fazem safrinha.

Segundo, você precisa querer passar do teto da FBN. Se colhe 70 sacas, a conta fecha e sobra dinheiro, o vídeo diz com todas as letras que essa mudança não vai fazer diferença para você.

Terceiro, falta tempo. Com meses até o plantio, a leguminosa sai mais barata e deixa mais no solo. E se a FBN está falhando por inoculante, pH ou falta de água, nitrogênio mineral não conserta a causa.

No fim do vídeo, o Caetano repete que não existe receita de bolo. Para o cliente do exemplo, a decisão foi colher o milho, dessecar a braquiária, semear ervilha forrageira e plantar a soja sobre ela. Em outra área poderia ser crotalária, ervilhaca ou o próprio sulfato. Receita copiada pode não funcionar, ou funcionar caro: você colhe mais e não sobra dinheiro. O método segue essa ordem: descobrir o que limita o ambiente de produção antes de escolher a ferramenta.

Perguntas frequentes

A soja não faz fixação biológica? Por que me preocupar com nitrogênio?
Faz, e a FBN é a principal fonte de nitrogênio da lavoura. O problema é o teto: pelo estudo que o Caetano cita, cerca de 75 sacas por hectare se tudo der certo. Acima disso, o nitrogênio vem do solo, e é aí que o saldo negativo deixado pelo milho safrinha pesa.
Colocar nitrogênio na soja não deixa o plantio inviável?
Essa dúvida apareceu nos comentários do vídeo. O Caetano respondeu que o nitrogênio deve entrar por plantas fixadoras. O sulfato de amônio fica para quando não há tempo de fazer uma leguminosa antes da soja, com dose calibrada para o saldo negativo.
Posso aplicar o sulfato de amônio com a soja já em campo?
O Márcio Strieder conta que testou a aplicação em R3 e R4 e o resultado não foi o mesmo da aplicação em pré-plantio, sobre a palhada. Nenhum dos dois vídeos recomenda sulfato em cobertura na soja.
Por que sulfato de amônio e não ureia?
O Márcio dá duas razões: o sulfato de amônio não volatiliza e ainda leva enxofre. Mas a fonte vem depois da pergunta principal, que é se a sua área tem mesmo um saldo negativo de nitrogênio e de quanto.
Colho 70 sacas e estou satisfeito. Isso muda algo para mim?
Pelo raciocínio do próprio vídeo, provavelmente não. Se a conta fecha e sobra dinheiro, o saldo de nitrogênio pesa menos. O vídeo foi feito para quem já colhe perto de 80 sacas, sabe que pode ir além e vê o vizinho colher mais com o mesmo material.

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A aplicação leva poucos minutos e serve para os dois lados: eu entendo a sua área, você entende se faz sentido continuar.

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