Soja de alta produtividade: o manejo por trás das 127 sacas por hectare

Vinícius Caetano, engenheiro agrônomo
· 9 min de leitura

Vídeo: Ele Colheu 127 Sacas de Soja por Hectare na Última Safra (Laércio Dalla Vecchia) (canal Agricultura Regenerativa)

Você já viu esse número circular: 127 sacas de soja por hectare. A primeira reação de quase todo produtor é perguntar o que foi aplicado. Qual adubo, qual fungicida, qual biológico, qual cultivar.

A pergunta parte de uma ideia errada: a de que soja de alta produtividade se compra na semana do plantio. No vídeo em que mostra a área, o Laércio Dalla Vecchia aponta para outra coisa. A palha de milho no chão, as plantas que vieram antes, o calcário. Na soja do concurso, segundo ele, entra só a semente.

Copiar esse manejo não adianta, e ele mesmo repete que cada talhão tem a sua história. O que dá para levar é o mecanismo, e com ele a decisão de onde vai o seu dinheiro na próxima safra.

De onde vêm as 127 sacas?

Aqui convém ler com atenção. O Laércio conta que as 127 sacas por hectare foram colhidas na área do irmão dele, no concurso de produtividade local, e que o irmão chegou lá "exatamente nesse manejo", o mesmo que ele mostra no vídeo.

Sobre o que faz a diferença ali, ele mesmo responde: as plantas, a palha do milho que está no sistema e o que ele chama, com ironia, de "pozinho milagroso". O pozinho é calcário.

É o relato de um produtor sobre uma área, num ano e num concurso. Não serve como média, muito menos como promessa.

Onde se constrói a soja de alta produtividade?

A frase mais importante do vídeo não tem número. O Laércio diz que o maior aumento de produção se faz agora, no inverno e na entressafra: plantas de manejo do solo, correção, calcário, pH, rotação e diversidade. Depois que a soja está plantada, segundo ele, dá para manter o potencial produtivo. Aumentar, não.

Olhe para o seu orçamento de safra. Se quase tudo entra depois da semeadura, você paga para proteger um teto definido meses antes.

Por que plantar soja sobre palhada de milho?

O sistema normal dele é milho, feijão e soja. No talhão de 24 hectares preparado para o CESB, ele abriu mão do feijão para plantar a soja direto sobre a resteva do milho. O motivo, nas palavras dele: a soja ama resteva de milho.

No campo, ele pede para o grupo procurar palha de soja no chão. Ninguém acha: já foi tudo decomposto. Sem esse resto de cultura, as doenças necrotróficas, que sobrevivem na palhada da própria soja, não têm de onde começar.

Depois ele arranca uma soqueira de milho e mostra as raízes em decomposição, que deixam canais abertos no solo. Por eles passa oxigênio, e por isso ele chama o milho de principal ferramenta para oxigenar o solo.

A palha também carrega nutriente. Ele diz que ela deixa muito potássio orgânico no solo, e aponta os fungos e as bactérias de decomposição, trichoderma e bacilos, trabalhando nela.

Ele ainda chama a palha de primeiro tratamento: a chuva bate na palhada e não respinga terra nas folhas, o que ajuda contra doença e contra planta daninha.

Qual planta de manejo do solo vem antes da soja?

A regra dele é fácil de guardar: folha estreita, folha larga. Antes da soja, que é folha larga, ele favorece gramíneas. Antes do milho, que é gramínea, favorece folha larga. "Folha estreita em cima de folha estreita não fica tão bom", resume.

No talhão da soja, o mix tinha 50% de centeio, 30% de aveia e 20% de plantas fixadoras de nitrogênio. O centeio tem motivo. Na altitude onde ele planta, entre 900 e 1.000 metros, a principal doença é o mofo-branco, e o centeio acamado sobre o solo ajuda muito a segurá-lo. A mesma cobertura segura umidade e protege da erosão.

Ele compara as plantas de manejo do solo, que chama de plantas de serviço, a um time: cada uma tem sua posição, e o técnico precisa conhecer cada jogador. Na opinião dele, o erro mais comum no Brasil é usar planta de menos. Quando fala dos pilares do plantio direto, a pergunta que faz é: cadê a rotação, cadê a diversidade?

Nas áreas dele, a conta fecha em 14 plantas diferentes em três anos. Depois da soja, milheto, capim-sudão e crotalária. Antes do milho, ervilhaca, ervilha, tremoço e um pouco de centeio. Depois do milho, aveia-preta e cevada forrageira, depois ervilhaca e, sobre ela, feijão em dezembro. Depois do feijão, níger, com braquiária ou sem ela se vier trigo ou cevada. O artigo sobre mix de plantas de cobertura no plantio direto detalha como montar uma mistura.

Dá para plantar soja sem adubo no sulco?

No talhão do CESB, o Laércio não vai colocar nada na soja além da semente. Isso só funciona pelo que vem antes, a adubação de sistema.

Antes do milho, ele faz análise de solo e corrige o que falta. Entra composto em dose alta, cloreto de potássio conforme a necessidade e sulfato de amônio. O milho recebe uma adubação pesada, calculada para uma produção alta, e, nas palavras dele, "serve a mesa para a próxima cultura". Quando chega a soja, o potássio veio da área do milho, o fósforo está solubilizado no solo e o nitrogênio está no sistema.

O mecanismo que ele explica é o do fósforo. Onde tem fósforo, a raiz vai atrás. Com o adubo concentrado no sulco, a raiz fica perto da linha e o sistema radicular é menor. Com o fósforo distribuído na área, a raiz explora para os lados e para baixo. A planta investe em raiz, fica com porte menor e entrenó mais curto, e o risco de acamamento cai. Com muito fósforo no sulco, ela cresce demais em parte aérea, fecha a entrelinha cedo e pode abortar galho, como um pedreiro que levanta uma parede para depois derrubar.

Ele resume a lógica numa frase: para fazer adubação de sistema, primeiro você precisa ter um sistema.

Quanto calcário a área aguenta?

O talhão foi aberto há cerca de 40 anos e, segundo ele, já recebeu 38 aplicações de calcário. O pai dele tinha medo de 4 toneladas por hectare, achava que ia "queimar a terra". Hoje o Laércio defende doses altas sobre solo oxigenado e com palhada, desde que a análise mostre o que falta e o solo fique em equilíbrio.

A amostragem é em três camadas: de 0 a 20, de 20 a 40 e de 40 a 60 centímetros. Enquanto falta calcário na camada de baixo, ele continua aplicando por cima. O raciocínio é que o calcário só desce quando sobra em cima. Nas regiões de duas safras no Paraná e em Santa Catarina, ele estima perto de 1,6 tonelada por hectare entre acidificação e o que sai da lavoura no caminhão. Se a reposição fica abaixo disso, não sobra calcário para descer.

O gesso, para ele, é a cobertura do bolo, e primeiro se faz o bolo. Ele usa 1 tonelada de gesso por hectare a cada três anos, antes do milho, principalmente como fonte de enxofre. Boro entra todo ano, com duas fontes diferentes, porque, diz ele, o boro sempre está faltando.

Quando esse manejo não se aplica?

Tirar o adubo da soja sem ter o sistema montado é um jeito rápido de perder saca. O próprio Laércio condiciona tudo: a soja vai só com semente porque existe uma boa análise de solo, um milho bem adubado antes e anos de correção e palhada. Se a sua área é soja sobre soja, com pouca palha e solo compactado, o primeiro passo é outro.

O contexto também pesa. A área fica em altitude, tem o mofo-branco como principal doença e um inverno com janela para várias plantas. Em região de inverno seco, a sequência de espécies e as datas mudam.

A genética também depende do terreno. Ele compara a cultivar de maior potencial que planta a uma Ferrari: ninguém põe uma Ferrari numa estrada cheia de buraco. Ela responde em solo oxigenado, drenado e em rotação com milho.

Por fim, tem o clima do ano. A meta dele para a área do CESB é 140 sacas por hectare, mas a previsão era de ano chuvoso e com pouca luz, e ele mesmo diz que não sabe se vai dar. O que dá para controlar é o básico bem feito.

Qual decisão levar para a próxima safra?

O Laércio resume o que todo campeão tem: rotação de cultura, cobertura de solo e plantio direto bem feito. Em cima disso vêm época de plantio e variedade adequada. Manejo químico importa, mas depois da base.

A decisão prática é olhar para a sua área antes de fechar o pedido de adubo da soja. O que veio antes? Quanta palha tem no chão na hora de plantar? A análise mostra o perfil até 60 centímetros ou só a camada de cima? O calcário que você aplica cobre o que a lavoura consome?

Se as respostas forem fracas, o dinheiro que mais rende tende a estar no inverno e no milho, não no sulco da soja. Descobrir qual é o fator limitante da sua área é o ponto de partida do método.

Perguntas frequentes

As 127 sacas por hectare foram colhidas pelo Laércio?
Não. Ele conta que as 127 sacas foram colhidas na área do irmão dele, no concurso de produtividade local, com o mesmo manejo mostrado no vídeo.
Posso plantar soja só com a semente, sem adubo?
Só se a sua área já tiver um sistema montado e a análise de solo mostrar que o nutriente está lá. No caso do vídeo, o milho anterior recebeu adubação pesada, o solo vem sendo corrigido há anos e a palhada é farta. Sem essa base, a economia no sulco pode sair cara na colheita.
E se na minha região não chove em julho e agosto?
Essa dúvida apareceu nos comentários: a soja sai em fevereiro ou março, o mix entra logo depois, é manejado em julho e a soja só volta em outubro. O vídeo não trata desse clima. Dá para aproveitar a lógica de manter o solo coberto e favorecer, antes da soja, plantas que façam massa e palha. Quais espécies e em que data se decide olhando a sua região e a sua área.
Tem integração com pecuária nesse sistema?
Na propriedade mostrada, não. Respondendo a um comentário, o canal diz que seria uma ótima alternativa, mas o vídeo não mostra como encaixar o gado na sequência de plantas.
Calcário em dose alta não queima a terra?
Esse era o medo do pai do Laércio. A posição dele é que, com solo oxigenado e palhada, dose alta não é problema, desde que venha de análise em profundidade e mantenha o solo em equilíbrio. A dose certa é a que a análise da sua área pede.

Descubra o que está travando a sua margem antes de comprar mais adubo.

A aplicação leva poucos minutos e serve para os dois lados: eu entendo a sua área, você entende se faz sentido continuar.

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