Mix de plantas de cobertura no plantio direto: como montar o seu

Vinícius Caetano, engenheiro agrônomo
· 9 min de leitura

Vídeo: Manejo com Mix de Coberturas em Sistema de Plantio Direto (Entrevista com ADEMIR CALEGARI) (canal Agricultura Regenerativa)

Você semeou aveia no inverno, a área ficou verde e a soja que veio depois não mudou nada. Daí para concluir que cobertura não funciona é um passo. Na maioria das vezes o problema veio antes, na semente, na proporção entre as espécies ou na falta de um objetivo para aquela área.

Um mix de plantas de cobertura bem montado mexe na física, na química e na biologia do solo ao mesmo tempo. Mal montado, vira custo sem retorno e ainda pode trazer invasora ou doença para dentro da lavoura.

Nesta entrevista, o Caetano conversa com Ademir Calegari, pesquisador aposentado do IAPAR, onde trabalhou por cerca de 38 anos. São 49 anos de pesquisa com plantas de cobertura. O que segue é o raciocínio dele sobre por onde começar, como escolher as espécies e quais erros ele mais encontra no campo.

Sobre o nome: o Calegari fala em planta de cobertura ou planta de serviço, e o Caetano prefere planta de manejo do solo, porque o trabalho dela vai muito além de cobrir. Aqui os três nomes tratam da mesma planta.

Por que um mix e não uma espécie só?

Cada espécie faz um trabalho diferente no solo. Na descrição do Calegari, uma é mais hábil em fixar nitrogênio, outra vai buscar enxofre, outra potássio, outra solubiliza fósforo, e outra tem baixo fator de reprodução para nematoides. Juntas, elas competem e se complementam.

Embaixo da terra a conta é parecida. Raízes de formatos diferentes, com exsudatos diferentes, alimentam uma comunidade maior de microrganismos. Uma espécie sozinha, repetida todo ano, alimenta sempre os mesmos.

O argumento dele vem da própria lavoura: não existe região onde cresça um tipo só de invasora. A memória do solo, nas palavras dele, é a diversidade de plantas. Quando o manejo afunila tudo numa cultura, aparecem mais doenças, fitonematoides e pragas.

Por onde começar: diagnóstico antes da semente

Para o Calegari, o primeiro passo é o diagnóstico feito por talhão homogêneo, levando em conta a posição no relevo, o sistema de produção e a profundidade do solo. A semente vem depois.

O diagnóstico procura o gargalo que impede soja, milho ou trigo de chegar ao potencial. Alumínio, erosão numa área com declive e sem terraço, água que não infiltra, raiz que não desce, nematoide: cada resposta muda a ordem do trabalho. Numa área compactada, ele manda ver se o problema é só físico ou se tem alumínio junto travando a raiz. No segundo caso, a correção química entra no plano, com o alumínio corrigido e cálcio levado em profundidade.

Um dos casos que ele acompanhou, em Guaíra (SP), começou pelo mix de plantas. Em outros, o primeiro passo foi terraço e descompactação, e só depois vieram as plantas, os biológicos, o composto e a integração com animais. É a lógica que o método da Taiguara também segue: descobrir o que está limitando a área antes de decidir o que colocar nela.

O caso de Guaíra ajuda a entender o mecanismo. Os avós já adubavam aquela área havia uns 50 anos, e boa parte desse nutriente continuava no solo em forma pouco disponível. Parte do potássio tinha sido lixiviada. As plantas do mix trouxeram esse nutriente de volta para o sistema, e ele conta que a produção subiu enquanto a necessidade de insumo caiu. Pelo relato do Calegari, a área está há quatro anos sem potássio e há cerca de dois com 20 kg de fósforo ou nenhum.

Como escolher as espécies do mix de plantas de cobertura

Mix pronto que sirva para todo mundo não existe. A escolha sai do diagnóstico e do objetivo da área, e o Calegari faz estas perguntas antes de definir as espécies:

O que você precisa saber O que isso muda no mix
Tem geada na época em que o mix vai estar no campo? Entram espécies que suportem geada.
Qual é a janela de plantio? Define quanto tempo o mix tem para crescer.
O solo é arenoso, guarda pouca água e tem pouca matéria orgânica? Muda o objetivo e as espécies possíveis.
Tem invasora de crescimento rápido? Entram espécies que também cresçam rápido, para sombrear e abafar.
Tem nematoide? Entram espécies com baixo fator de reprodução.
O que vem depois: soja, feijão, animal? O objetivo da área define a combinação.

A referência dele é passar de quatro a seis famílias botânicas, somando seis, oito, dez espécies. A mesma fazenda pode ter combinações diferentes conforme o talhão. Braquiária pode entrar com outras espécies, e em regiões de clima de transição ele junta plantas de outono e inverno com trigo mourisco e nabo forrageiro.

Quais erros tiram o efeito do mix?

Tratar a cobertura como sobra

É o erro que o Calegari mais vê. O produtor compra grão pelo menor preço e usa como semente, e junto vêm fedegoso, capins e outras invasoras. Ele conhece produtores em Goiás que levaram invasora e doença para a área com semente ruim há dez anos e ainda não se livraram delas.

O Caetano vê o mesmo com a aveia plantada "só para cobrir o solo", de qualquer jeito, e o Calegari lembra que às vezes essa semente já chega com carvão. Esse problema se evita na compra. A régua é a mesma que você usa para escolher a plantadeira: vigor, germinação, semente de qualidade.

Guardar semente de milheto

No Cerrado é comum comprar milheto mais barato, já de terceira ou quarta geração. Pela experiência do Calegari, até a segunda geração ele se sustenta. Na terceira, perde de 70% a 80% do efeito sobre nematoides, da produção de massa e da ciclagem de potássio.

Errar a proporção

Quando uma espécie entra em excesso, como milheto demais, ela toma conta e as outras ficam mal distribuídas. Na prática o mix vira uma cultura só.

Repetir a mesma espécie todo ano

Planta repetida por anos favorece a doença daquela planta. O exemplo do Calegari é a aveia sozinha, que acumula ferrugem. Com centeio junto, que é mais rústico, ele afirma que de 95% a 98% da ferrugem praticamente deixa de aparecer.

Esperar a colheita para semear

Semeadura atrasada encurta o tempo do mix no campo. Dá para colocar algumas espécies no meio do milho ou do sorgo, em sobressemeadura, sem esperar a colheita.

A planta resolve a compactação ou precisa mexer no solo?

Para o Calegari, revolver o solo para "zerar" o problema é a última opção, como uma cirurgia.

Ele se apoia num experimento do IAPAR em Pato Branco (PR), iniciado em 1986: 40 anos de plantio direto com plantas de cobertura, 12 teses, 34 artigos e mais de 35 mil análises de solo, segundo ele. O solo tem 73% de argila e não compactou, porque as raízes formam os bioporos.

Em Londrina (PR), numa área trabalhada com outro pesquisador, a compactação foi provocada até impedir o plantio. Entrou um mix de qualidade com sete espécies, as raízes atravessaram a camada e a soja plantada depois passou de 5.500 kg por hectare. Para ele, o número do aparelho sozinho não decide, e o melhor indicador de que o sistema está adequado é a produtividade.

No campo, ele recomenda olhar as raízes pivotantes da própria soja, do fedegoso, da guanxuma. Gramínea não serve para esse diagnóstico: a raiz em cabeleira é fina e passa onde soja, feijão ou algodão não passam. O penetrômetro é o ideal, mas sozinho não resolve.

Ele cita também um trabalho do professor Crusciol, da Unesp de Botucatu, segundo o qual, com um mix de várias espécies, cerca de 75% das raízes seguem os bioporos abertos pelas plantas de cobertura. A raiz procura o caminho que gasta menos energia, e esse caminho já tem nutriente da decomposição das raízes anteriores.

Quando o mix não resolve sozinho

O mix não substitui o resto do manejo. Algumas condições precisam estar atendidas, ou pelo menos no plano:

  • Área com declive e sem terraço perde solo antes de a planta fazer efeito. A conservação vem primeiro.
  • Alumínio em profundidade limita a raiz, e a correção química precisa entrar junto.
  • Cobertura feita uma vez a cada três ou quatro anos avança pouco. Quanto mais intenso o manejo, mais rápido o resultado, diz o Calegari.
  • Ficar anos sem potássio foi possível em Guaíra, numa área com meio século de adubação acumulada. Sem análise do seu talhão, cortar adubo é aposta.

Prazo ele não dá. Depende da região, da chuva, das espécies, dos biológicos usados junto, dos ajustes de nutriente e do que o Caetano chama de memória do solo.

No fim da conversa, a proposta do Calegari é não começar na fazenda inteira. Faça um bom diagnóstico, escolha uma área, faça bem feito e acompanhe. Os produtores que chegam a patamares altos, diz ele, têm em comum capricho, análise quase todo ano e ajuste constante. O caso do Laércio segue a mesma linha.

Perguntas frequentes

Quantas espécies precisa ter um mix de plantas de cobertura?
A referência do Calegari é passar de quatro a seis famílias botânicas, com seis a dez espécies. Uma braquiária com uma crotalária já é mais diversa que uma planta só, mas fica abaixo do que ele considera ideal. A combinação certa depende do diagnóstico do talhão.
Planta de cobertura descompacta o solo sem subsolador?
Pode descompactar. O Calegari mostra áreas em que as raízes de um mix atravessaram camadas compactadas e deixaram bioporos para a cultura seguinte, e trata o revolvimento como última opção. Antes de decidir, olhe as raízes pivotantes e veja se a compactação é só física ou se tem alumínio junto.
E a compactação que volta quando a colheita é feita com o solo molhado?
A entrevista não trata desse caso. O critério do Calegari vale para ele também: antes de mexer no solo, confira pelas raízes se a camada está mesmo impedindo o crescimento. Ele defende um solo fofo, com raiz e bioporo construídos pelas plantas, e o revolvimento só como última opção.
Posso usar grão guardado como semente de cobertura?
O Calegari desaconselha. Grão usado como semente costuma trazer invasoras e doenças que ficam anos na área, e o milheto guardado perde boa parte do efeito a partir da terceira geração.
Em quanto tempo o mix de plantas de cobertura mostra resultado?
Não há prazo fixo. Depende da região, da chuva, das espécies, dos biológicos e dos ajustes de nutriente feitos junto. O Calegari insiste na intensidade: quem faz cobertura uma vez a cada três ou quatro anos avança pouco, e quanto mais o manejo se intensifica, mais rápido o solo chega ao equilíbrio.

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